26 de dez de 2011

Ser transexual no Irã


Maryam Khatoon Molkara é a primeira a admitir que teve uma vida complicada. Uma mulher de meia idade rechonchuda e vistosa, ela se chamava Fereydoon e agora é um transexual vivendo na República Islâmica do Irã: alguém que voluntariamente se meteu embaixo do véu. Nos últimos 54 anos, ela viu mudanças sísmicas tanto em seu corpo como em sua pátria.

Nos últimos tempos, dezenas de transexuais têm podido procurar abertamente tratamento para mudar de sexo. E é graças em grande parte a Maryam e a uma campanha pessoal que a levou a apelar duas vezes diretamente ao próprio homem que orientou a guinada do Irã para a teocracia, o aiatolá Khomeini. O governo islâmico do Irã está começando a reconhecer pessoas com desordens sexuais e permitir que façam operações de mudança de sexo, obtendo também novas certidões de nascimento. Algumas são até recomendadas para tratamento por clérigos e o governo ajuda a pagar as operações.
Após a Revolução Islâmica em 1979, o novo governo classificou transexuais e travestis junto com gays e lésbicas, que eram condenados e enfrentavam punições como chicotadas e até a morte no novo Código Penal iraniano. Nos anos 80, o Irã travou uma guerra sangrenta com o Iraque, amplificando o trauma nacional.
"Quando a guerra começou, fiz serviço voluntário de enfermagem perto do front. Quando fazia curativos nos feridos, muitos se sentiam como estivessem sendo tratados por uma mulher, porque eu era mais gentil, e às vezes os ouvia se perguntarem que tipo de pessoa eu era"
relembra Maryam.

Seu trabalho médico no front chamou a atenção de figuras importantes no governo e um paciente com conexões no poder conseguiu-lhe entrevistas com altos funcionários. Em 1987, Maryam foi levada ao aiatolá Khomeini, e em meia hora de conversa tinha a autorização para mudar de sexo. O chador preto - o símbolo onipresente da feminilidade revolucionária iraniana - foi-lhe dado naquele mesmo dia. Num país onde os direitos 

das mulheres têm estado freqüentemente sob ataque, o chador foi um paradoxal símbolo de sua recém-conquistada liberdade de identidade.

A decisão de Khomeini pode ter se enraizado numa troca de correspondência anos antes com Maryam, quando o líder religioso ainda estava exilado no Iraque. Profundamente religiosa, Maryam, ainda Fereydoon, fora procurar um aiatolá para orientar-se sobre a troca de sexo e o clérigo fez um istikhareh, um ritual religioso típico no Irã: deixou cair o Alcorão e interpretou o problema de Maryam de acordo com a página em que o livro sagrado muçulmano se abriu. A página era na surata de Maryam, os versos do Alcorão que contam a história de Maria, mãe de Jesus. O aiatolá Behbehani disse-lhe então que isso significava que sua vida seria como a de Maria - uma luta - e aconselhou-a a escrever a Khomeini para obter o parecer do líder religioso máximo dos xiitas. Maryam escreveu e dele teve, como resposta, o reconhecimento de que era uma mulher e devia seguir os ritos islâmicos como tal.
Khomeini achava que a pessoa tem de ter uma identidade sexual clara para praticar suas obrigações religiosas
explica ela, que naquele dia se redescobriu.
Ele disse que por causa dos meus sentimentos, eu devia observar todos os ritos específicos para as mulheres, inclusive a forma de vestir.
Maryam viveu mais de 20 anos com um homem e depois ainda teve um casamento curto com um funcionário público. Quatro anos atrás, Maryam estabeleceu uma organização para ajudar pessoas com crise de identidade sexual, e um grupo filantrópico islâmico chamado Fundação de Caridade Imã Khomeini, que faz empréstimos de até US$ 1.200 para ajudar a pagar as operações de troca de sexo.

Irã é o segundo país onde mais se faz a cirurgia de redesignação sexual

Mahmoud Ahmadinejad, o polêmico e atual presidente iraniano, provocou controvérsia em Nova Iorque quando declarou que não existem homossexuais em seu país. Ao menos é o que ele diz acreditar. Essa crença de uma sociedade islâmica exclusivamente não-gay, no entanto, é minada pelo paradoxo de que a transexualidade e a mudança de sexo são toleradas e encorajadas pelo atual sistema teocrático iraniano.

De acordo com as estatísticas oficiais, o Irã tem entre 15 mil e 20 mil transexuais, mas estimativas indicam a existência de mais de 150 mil. O Irã só fica atrás da Tailândia no número de operações para troca de sexo. Tal procedimento foi “legalizado” pelo aiatolá Khomeini, líder espiritual da Revolução Islâmica de 1979, por meio de uma fatwa (pronunciamento legal no Islã emitido por um especialista em lei religiosa) autorizando a cirurgia, há mais de 25 anos.

Enquanto a homossexualidade é considerada como um pecado, a transexualidade é categorizada como doença passível de cura.

O governo iraniano tenta ser discreto ao que se refere a este “consentimento”. O apoio estatal à mudança de sexo, entretanto, só aumentou desde que Ahmadinejad tomou posse, em 2005. Seu governo concede US$ 4,6 mil (cerca de R$ 9 mil) para uma pessoa que deseja fazer a cirurgia e o tratamento hormonal que se segue após a operação. Existem também propostas para empréstimos de até US$ 5,6 mil (cerca de R$ 10 mil) para todos aqueles que fizerem a cirurgia e desejem iniciar um negócio próprio.

Maryam Khatoon Molkara, líder da principal organização transexual do país, diz que algumas das pessoas que fazem a cirurgia são “gays” e não transexuais por inteiro. “No Irã, os transexuais integram a família dos homossexuais. Será possível que esse fenômeno não exista em nenhum lugar do mundo a não ser no Irã? A transexualidade é uma via de mão-única, não há retorno. Se alguém (homossexual) quiser estudar, ter um futuro e uma vida normal o jeito é passar por esta cirurgia”, afirma. 
Os integrantes de campanhas gays alegam que vários homens homossexuais foram executados numa onda de enforcamentos. Shirin Ebadi, advogada dos direitos humanos e prêmio Nobel da paz, explica: “No Código Criminal iraniano existe uma parte dirigida à homossexualidade dos homens, que é chamada de lavat (sodomia), a qual é punida com a morte. Para as mulheres, existe uma parte chamada mosahegheh. Se o crime for cometido até três vezes, a pena é de 100 chibatadas. Na quarta, a mulher é executada.”





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