20 de mar de 2012

Transexual assume cargo público na Bahia e quer recursos para ações anti-homofobia‏

                                Paulett e a primeira-dama, Marisa Letícia, em Salvador
 
Ela nasceu homem, mas faz questão de não pronunciar o nome de batismo. Aos 20 anos, assumiu a identidade de Paulett Furacão e se transformou numa ativista da causa LGBT , que defende os direitos das lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Agora, aos 25, foi nomeada para o cargo de coordenadora do Núcleo LGBT da Secretaria Estadual de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos. É a primeira transexual a assumir um cargo público no governo da Bahia.
Negra, transexual e crescida no violento bairro do Nordeste de Amaralina, em Salvador, Paulett disse que os momentos mais difíceis que passou ocorreram na adolescência. “Tive que abandonar a escola no meio do segundo grau (ensino médio), pois era um inferno. Sempre gostei de estudar, mas os colegas me batiam, humilhavam, xingavam... era um verdadeiro inferno”, disse ao UOL por telefone.
Apesar de contar com a compreensão dos parentes e com o acolhimento dos amigos e vizinhos, ela disse que era difícil ter que se vestir e se comportar como homem. “Uma vez, quando tinha 16 anos, meus pais me levaram para comprar roupas, e para me livrar logo da situação, chegava a levar diversas peças (masculinas) repetidas para casa.
O engajamento no combate à homofobia veio após o assassinato do travesti conhecido como Laleska de Capri, o que fez com que Paulett fosse uma das fundadoras de uma associação que defende o direito dos homossexuais.
Agora, à frente do núcleo LGBT do governo, ela disse que os desafios são ainda maiores. “O primeiro é perder esse titulo de única transexual dentro do governo”, afirmou. “O outro, mais complicado, é obter recursos para desenvolver as ações dentro do núcleo que assumiu dentro do governo.”
“Estamos começando, ainda não temos um orçamento, mas vamos fazer parcerias para promover campanhas de conscientização, fazer com que as pessoas tenham acesso à informação e levar o combate à homofobia para as instituições educacionais”, disse.
Paulett lembra ainda que o preconceito, em muitos dos casos, acaba empurrando homossexuais, principalmente travestis e transexuais, para a marginalidade. “As que têm mais sorte conseguem obter um trabalho como cabeleireira ou manicure, mas a maioria acaba mesmo vivendo da prostituição. Também queremos ver essas pessoas em funções como advogadas, jornalistas, administradoras, dentre outras”, afirmou.

“Passo simpático”

Fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), o antropólogo Luiz Mott, afirmou que a nomeação de Paulett para uma função dentro do governo “é um passo simpático”, mas alerta que é preciso que sejam tomadas medidas concretas para o combate à violência contra os homossexuais.
De acordo com levantamentos anuais realizados pelo GGB, através de registros na imprensa e de comitês de combate à violência contra gays, lésbicas, transexuais e travestis, 81 homossexuais foram assassinados no Brasil até a primeira semana de março.
Ainda segundo o estudo, foram 272 homicídios no ano passado e 260 em 2010. A Bahia é um dos líderes do ranking de mortes por motivos homofóbicos, o que corresponde a 10% dos assassinatos registrados em todo o país. Para Mott, são necessárias campanhas de alto impacto para que as pessoas passem a respeitar os homossexuais como cidadãos.
O atual presidente do GGB, Marcelo Cerqueira, disse que a nomeação de Paulett na Secretaria de Justiça do governo é um ato de importante simbologia e que o próximo passo é garantir a uma transexual um assento no Conselho Estadual da Mulher.
Se no Executivo Estadual Paulett é foi a primeira transexual a assumir um cargo público, no Legislativo de Salvador, a dançarina e travesti Leo Kret do Brasil (PR) foi a primeira a conquistar uma vaga na Câmara Municipal, ao receber 12.860 votos nas eleições de 2008

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