13 de mai de 2011

“Meu maior sonho é ter o direito de amar”. “Em Sergipe, o homossexual é visto como depósito de esperma”.


Por Valldy de Cruz
Em pleno século XXI, quando se imaginava que teríamos avançado na aceitação da diversidade de gêneros, a situação da transexual sergipana, de Aquidabã, Adriana Lohanna, de 24 anos, ilustra o quanto ainda é preciso caminhar no combate a homofobia -repulsa contra homossexuais, de acordo com o dicionário.
Se as relações sociais são complicadas para os homossexuais em geral, para transexuais e travestis o problema ainda é mais sério.
Adriana Lohanna dos Santos é pesquisadora da área de gênero e diversidade sexual, militante LGBTT e estudante de Serviço Social. Atualmente é monitora do Centro de Atendimento e Pesquisaem Serviço Socialda Universidade Tiradentes (Unit).
Numa tarde de domingo, com sol forte e calor escaldante, acompanhada dos amigos Jeferson e Shulín, ela chega a Praia de Atalaia – um dos cartões postais de Aracaju, para conceder a entrevista, que há mais de quatro meses venho tentando marcar. Além dos amigos, traz consigo a bandeira GLBT, seu amuleto. O sorriso espontâneo, os gestos incontidos e o largo sorriso, em nada lembram os sofrimentos já vividos.
Em entrevista exclusiva, Adriana Lohanna fala da sua luta por uma nova identidade, da longa jornada que tem travado com o Centro de Referência e Combate a Homofobia, para conseguir a cirurgia de readequação genital. Relata as agressões e constrangimentos que marcam seu dia a dia, conta da agressão sofrida durante a realização do ‘Casamento do matuto’, em sua cidade, no mês de junho do ano passado; do episódio em que foi barrada na entrada dos Fóruns Integrados I, por estar ‘indevidamente vestida como mulher’ e da época em que foi proibida de usar o banheiro feminino na faculdade em que estuda. Denuncia a opressão que o grupo GLBT sofre no estado, se emociona e chora quando confidencia que seu maior sonho é ter o direito de amar.
Quem é Adriana Lohanna dos Santos?
(fala com convicção) Uma militante, uma lutadora do movimento LGBT. Antes de tudo, Adriana Lohanna dos Santos é uma mulher lutadora de todas as causas sociais, uma pessoa sonhadora que sonha por um mundo melhor, onde todos tenham liberdade, dignidade e fraternidade, como prezava a Revolução Francesa.
Como foi sua infância?
(os pensamentos se remetem ao passado. Um ar de tristeza surge na face e no olhar) Perturbada. Eu acho que toda infância de uma mulher transexual é um pouco perturbada. Como toda pessoa que tem uma orientação sexual diferente, eu procurei a igreja, eu fui catequista da igreja católica, fui coordenadora da catequese. E aí, eu fui uma criança sem infância. Minha infância era na escola. Vivia na escola manhã, tarde e noite. Era uma maneira de me refugiar da minha identidade sexual. Eu vivi uma infância onde era obrigada a viver uma coisa que eu não era, porque eu não tinha aptidões masculinas.
 Quando você descobriu que não era igual aos outros meninos?
Aos 7 anos de idade. Desde essa época que eu venho tendo todos os conflitos possíveis, devido minha identidade sexual. Eu queria usar calcinha da minha irmã, mas não podia, eu queria saber porque não podia brincar com brincadeiras de      meninas, se eu me sentia bem com as brincadeiras delas. Eu era condicionada a viver uma vida que não era minha, porque eu me sentia uma menina.
Como você reagiu?
Eu reagia da melhor maneira possível. Eu tentava ser o menino que meu pai e minha mãe queriam, mas automaticamente eu tentava ser a menina que existia dentro de mim. Isso reprimia muito minha sexualidade, minha identidade sexual.
Você tinha medo?
(balançando a cabeça) Tinha, tinha sim, muito medo.
Por quê?
Se eu ouvia que não podia ser igual ao meu tio, eu tinha medo. Saía muita historinha na escola, que eu estava com brincadeiras ou dançando como mulherzinha e, isso, já era motivo para meu pai me bater. Eu sempre tive personalidade muito forte e, me impunha diante da situação, dizendo que eu queria ser como era.
 “Meu maior sonho é ter o direito de amar”.
“Em Sergipe, o homossexual é visto como depósito de esperma”.
 Mas só seu pai implicava com você?
Não, grande parte da minha família. Diziam que eu não podia ser assim, que homem não era assim. Toda família me questionava porque eu era diferente. Desde criança eu era afeminada.
Até quando seu tormento durou?
Até os 14 anos, quando recebi o apelido de “Fashion”. (risos). E aí começou meu processo de assumir minha verdadeira identidade, porque chega um certo momento em que você não aguenta. Você precisa fazer sua identidade transparecer. Foi aí que a mulher Lohanna surge, porque tudo é um processo.
Mas meu tormento ainda dura. Porque a sociedade não te percebe, não te reconhece como mulher, não te respeita como mulher. Há uma opressão contra a classe LGBT na sociedade. E o que mais dói não é a violência física, as chacotas, é a psicológica sentimental.
É esse tipo de opressão que leva muitas transexuais a se matarem, a se mutilarem. O simples fato de você ser uma transexual te priva de ter uma vida social, de amar. E aí eu concluo essa pergunta me remetendo a uma resposta que dei em um evento que participei na Unit, quando alguém me perguntou “qual era meu maior sonho”. Meu maior sonho é ter o direito de amar e ser amada, porque até hoje eu não tive esse direito. Sou uma mulher sem direitos.
No seu ponto de vista, algum dia a sociedade vai encarar a transexualidade como algo inerente ao nosso cotidiano?
(é categórica ao falar) É uma realidade muito distante de mim e de você, mas eu luto para isso. Muitas vezes eu digo que sou capaz de morrer por essa militância GLBT, para que outros gays, outras transexuais tenham esse direito. Eu não me importo em ser a Joana D’Arc LGBT.
É para mudar a cabeça da sociedade que todos os dias luto, que estou na militância, que faço palestras. Com toda certeza pode ser que eu morra e não veja isso, mas meus netos e bisnetos verão. A história está sendo construída a partir de agora, com cada ação, cada palestra, cada luta.
Palestra e debate sobre Direitos Humanos, realizados por Adriana.
Palestra e debate sobre Direitos Humanos, realizados por Adriana.
 Então, lutar pelo movimento GLBT é o seu lema?Sim. Inicialmente tornou-se uma luta minha pelo direito de ser mulher, de ser vista como mulher, de ser respeitada como mulher, mas depois essa luta se abrangeu por toda a comunidade GLBT. Quando busquei meus direitos, acabei me encantando pelo movimento e abracei a causa. Eu me percebo dentro dele, apesar de que muitas transexuais não se percebem. Só entram nele para conseguir a cirurgia de troca de sexo e depois que elas se percebem mulheres saem do movimento ou se distanciam.
Quando você teve a primeira experiência com um homem?
Na verdade, minha primeira experiência com um homem foi muito difícil. Foi com um menino que implicava muito comigo na época do ensino médio. Ele praticamente me abusou sexualmente.
 Qual foi sua reação?
Foi uma experiência frustrante, mas muito importante. A partir daquele dia comecei a pesquisar sobre a homofobia e descobri que o homofóbico nada é mais do que um homossexual internalizado, que tem medo de assumir para a sociedade quem é e por isso que odeiam homossexuais. É aí que nasce a Lohanna pesquisadora, que tem sede pelo saber, pelo movimento GLBT. Foi quando me perguntava: eu gostei ou não daquele ato? Eu sou o quê? Gay, travesti ou transexual?
 Você pensa em casar? E ter filhos?
(abre um largo sorriso) É um dos meus maiores sonhos. Eu disse a Adenilson uma vez. É poder entrar numa igreja para casar com ele, que é meu grande amor. Não precisa ser de vestido de noiva, mas com tudo que tenho direito, daminha, pagem… A maternidade também é algo muito importante para mim. Eu penso em adotar, principalmente um menino, não sei por que, mas talvez porque nunca tenha tido um irmão mais velho.
 Você é católica. Como lida com a posição da Igreja diante do movimento LGBT?
Como católica eu já estudei a Bíblia, já estudei teologia e garanto que inúmeras religiões não nos aceitam, mas a grande verdade é que há más interpretações sobre a Bíblia. Coisas que eram pecado antigamente, hoje não são. Tudo isso é uma questão de interpretação bíblica. Deus é único e Ele diz que vem para as pessoas de coração aberto. Ele ama todos nós. Nós não somos mais ou menos pecadores só porque temos orientação sexual diferente.
 Adriana Lohanna sofre muito com o preconceito?
(ar de tristeza… olha nos meus olhos) Sofre. E graças a Deus hoje já está sabendo mais lidar com o preconceito. Mas como eu disse anteriormente, a opressão psicológica é a que mais me faz sofrer. É muito difícil você estar nas ruas e vê as pessoas apontando: “olha a travesti passando, olha o veado, olha a bicha”.

“A história está sendo construída a partir de agora, com cada ação, cada palestra, cada luta”.
“A história está sendo construída a partir de agora, com cada ação, cada palestra, cada luta”.
“Não me importo em ser a Joana D’Arc GLBT”.
Isso dói na alma?
(cabisbaixa) Dói. É muito difícil você perceber que todos ao seu redor te olham diferente. As pessoas elas tem como se fosse um medo de se relacionar com você, por causa das imposições da sociedade. Eu perdi um grande namorado, o Rafael, que até chegou a apanhar por causa de mim, só porque assumiu nosso namoro. A gente namorava em praça pública, andava de mãos dadas.
 Que manifestações de preconceitos são comuns no seu cotidiano?
Fora os xingamentos, a pior manifestação de preconceito é o olhar diferente. Você passa e as pessoas te olham com olhar de susto. Mas há também o preconceito verbal e físico. Ouvi muito que veado tem que apanhar. Em todas essas situações, percebo que é como se  a sociedade achasse bonito a forma como os homossexuais são agredidos.
 O que você gostaria de fazer e não pode?
(sorrindo verdadeiramente…) Amar, porque até hoje eu não tive esse direito.
 O que você acha dos atos de afirmação homossexual, como as paradas GLBT? Por exemplo, o jornalista e homossexual assumido, Bruno Chateaubriand se diz contra.
De certa forma, as pardas LGBT cometem alguns erros. A parada GLBT nasceu em 1970, nos Estados Unidos, como uma forma de reivindicação dos homossexuais que sofriam com as opressões da época.
Muitas paradas hoje são apenas festas de visibilidade. Nós precisamos do nosso povo politicamente formado para chegarmos a qualquer ato de preconceito, a pessoa que é preconceituosa e discutir a discriminalização. É preciso também formar pessoas que estejam nas paradas militando. As paradas acontecem para formar militantes, dizer não ao preconceito e não para ser uma festa. Então, de alguma forma o que o jornalista fala tem sentido. As paradas hoje são muitas vezes grandes festas políticas.
 Qual sua relação com o Centro de Combate a Homofobia?
Minha relação com o Centro de Homofobia se deu logo depois do incidente em que fui proibida de usar o banheiro feminino da Unit. Eu conheci a estagiária de psicologia Elen, que me ofereceu ajuda para eu poder lidar com a questão do banheiro. Em todos os momentos o Centro se colocou a minha disposição, inclusive indo a universidade requerer meus direitos, discutindo esse caso. Mas em todos os momentos a Unit foi omissa. O Centro hoje é um parceiro meu, minha base sempre que preciso.
 Das situações de agressões e constrangimentos a que era submetida na infância, ficou alguma sequela?
(ar de tristeza surge no rosto) Ficou. A maior sequela da minha vida é não poder ter infância, não ter brincado. É olhar para trás e não poder dizer: “olha eu brincava disso”, “eu lembro daquilo”. Eu não tive infância devido a descoberta da minha orientação diferente.
 Confira no próximo domingo a segunda parte da entrevista. Até lá!
Créditos fotográficos: arquivo pessoal
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Uma resposta para De frente com Valldy

 Dafnne Victoria disse:
A trajetória de Lohanna se confunde com as de todas nós transexuais, que lutamos arraigamente todos os dias para sermos reconhecidas em um Páis que menospreza as minorias. A palavra transexual, só por si já diz que é algo que transcende, que vai além do que se pode ver ou imaginar. Vai além também nossso direitos desrespeitados e a consequente saga de limitações as quais somos condicionadas no nosso dia a dia. Não temos direito a nada e, principalmente, a amar e ser amada, que no meu ponto de vista, é o maior e mais sublime sentiemnto que pode reger uma nação. Assim como Lohanna, também somos vítimas do cárcere privado social, que nos obriga a vivermos trancafiadas em nossso mundos imaginários ou sair as ruas e correr o risco de sermos apedrejadas, senão assassinadas brutalmente, conforme números assutadores do relatório do GGB, divulgado recentemente. Façamos nossa parte como cidadãs e lutemos pelos nossso direitos sem medo. E dignidade, já!




De Frente com Valldy (Segunda parte da entrevista com Adriana Lohanna)

Publicado em 01/05/2011 por reporterpontocom

Adriana no Terminal Rodoviário se preparando para mais uma viagem da sua militância no GLBT
Na segunda e última parte da entrevista, Adriana Lohanna fala do preconceito no Estado e das agressões e constrangimentos que sofreu ao logo dos anos. Fala da sua militância no GLBT, da expectativa da cirurgia de readequação genital. E de ser a primeira transexual sergipana a estar na fila do SUS para realização da cirurgia de mudança de sexo. 
 Você acredita que Sergipe é um estado preconceituoso? E homofóbico?E o Brasil?
(fala sem titubear) Hoje eu digo que é o estado mais preconceituoso. Você percebe que em outros estados, as pessoas LGBT podem conviver em espaços socialmente. Em Sergipe, esse preconceito é muito velado, ele não se mostra, ele está na obscuridade. Se você perceber, Sergipe também é um estado campeão da homofobia. Em Sergipe o homossexual não pode andar de mãos dadas com seu par. No Rio de Janeiro isso é muito comum.
A cultura nordestina é machista, onde o homossexual é visto como uma pessoa pervertida. Ninguém o vê como uma pessoa que tem sonhos ou caráter, é visto como um depósito de esperma. A prova de que nosso estado é preconceituoso é que a classe LGBT está trancada em boates e barzinhos, tipo a Clone Mix e a Alquimia, porque precisamos viverem muros. Ali, o homossexual pode beijar e ser feliz, mas distante de lá, não, porque a sociedade não permite, aponta, julga, condena.
Também o nosso país é campeão em assassinatos de homossexuais, como confirma o antropólogo Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia. Esses crimes de crueldade são praticados pelo simples fato de suas vítimas serem homossexuais. E esses crimes horrendos são mais comuns entre travestis e transexuais, que são mais vistos na sociedade.
 Por que há tanto preconceito e homofobia em nossa sociedade? Faltam políticas públicas para coibir ações de preconceituosos e homofóbicos de plantão?
Faltam sim. O nosso país discute muito a diversidade de gênero porque está na mídia, porque é bonito. Nós temos um programa do governo federal, o “Brasil sem homofobia”, criado em 2007, mas que não funciona, que nunca saiu do papel. No Brasil, ser diferente é incomodar. As políticas públicas não funcionam.
Até hoje o Brasil discute a PLC122, alei que torna crime a homofobia. A lei é um projeto de 2006, mas que está parada. O debate não é nada fácil. O conservadorismo impera no Congresso nacional. Isso é lamentável em pleno século XXI.
 “A militância GLBT está no meu sangue”.

Adriana Lohanna é presença garantida no VI Encontro do Nordeste de travestis e transexuais
 Como se deu o episódio em que você foi barrada na entrada dos Fóruns Integrados I, em Aracaju, para participar de uma audiência, em 2009?
(gesticulando) Eu havia chegado ao fórum para a audiência de troca de nome. Já havia entrado e saía do prédio para recepcionar uma testemunha que acabara de chegar. Quando retornava para o interior do fórum, o segurança me abordou, pedindo que eu me identificasse. Me identifiquei e disse que já estava há algum tempo no recinto. Ele exigiu que eu mostrasse minha identidade e quando mostrei a ele pediu que eu me retirasse do local, alegando que eu estava inadequadamente vestida para permanecer lá, já que era proibida a entrada de homens trajando roupas femininas. Diante da insistência fui obrigada a me retirar. Na mesma hora liguei para o Centro de Combate a Homofobia chorando muito. Tive uma crise existencial. O Centro encaminhou até o local uma estagiária de psicologia e tentaram ver a minha situação. Depois de algum tempo a juíza autorizou minha entrada no fórum e aí voltei para a audiência. Processei o estado por constrangimento.
 E sobre a agressão sofrida, no mês de junho de 2010, durante a realização do Casamento do matuto de Aquidabã, sua cidade natal?
(se movimenta) Eu estava chegando no casamento do matuto. Estava de vestido e passei por um rapaz que estava ao lado de uns amigos. Sem motivo aparente ele levantou meu vestido. Voltei para ele e questionei qual o motivo daquela atitude. Ele me disse que se eu reclamasse iria me dar um murro. Eu estava dançando quando de repente realmente levei o murro. Só acordei nos braços de um amigo, que me levou até a polícia e em seguida fui encaminhada para o Hospital de Urgência de Sergipe. Meu maxilar foi quebrado e precisei me submeter a uma cirurgia. Esse cara não foi preso, eu não o conhecia e até hoje esse crime está impune. Foi aberto um inquérito policial contra o sargento que estava na guarnição e não prendeu meu agressor em flagrante, alegando que o delgado não se encontrava na cidade. São em ações como essa que você vê a omissão da polícia.
 Como tem sido o processo para conseguir a cirurgia de readequação genital?
(fala com empolgação) O processo iniciou em 2009, quando solicitei a secretaria de estado de Saúde que me encaminhasse ao Rio de janeiro para iniciar o tratamento para realização da cirurgia de transexualização. No primeiro momento, o estado me negou o direito, afirmando que eu estava fora do TFD, que é Tratamento Fora de Domicílio, que dá suporte a quem precisa fazer tratamento fora do estado. Tive uma briga jurídica com a secretaria para conseguir o direito. Fui a primeira transexual a ser beneficiada. Em 5 de maio de 2010 comecei o tratamento. O tratamento acontece periodicamente. De início ia a cada dois meses, agora vou a cada três e em seguida irei a cada seis meses. O tratamento inclui consultas com psicólogo, psiquiatra e com o cirurgião, doutor Alexsandro e sua equipe.
 Ser a primeira transexual sergipana a estar na fila do SUS para realização da cirurgia de mudança de sexo, de alguma forma, é uma grande responsabilidade?
Sim. Eu como a primeira dei abertura para que outras transexuais pudessem dar início ao tratamento, para conseguir a cirurgia de mudança de sexo. Eu conheço muitas transexuais que querem fazer a cirurgia. Eu estarei no Centro de Referência dando apoio a elas, mostrando o caminho a seguirem. Meu processo demorou porque teve toda uma briga jurídica. Qualquer transexual que queira fazer a cirurgia basta ir no TFD e solicitar o tratamento.
 Nos últimos anos muito se fala no movimento GLBTT. Como você vê essa exposição na mídia?
Está melhorando. Antes, você via a comunidade LGBT na mídia, principalmente em programas de humor como o Zorra total, mostrados de forma totalmente desconexa da realidade, nos mostrando como pessoas espalhafatosas, mostrando um lado errôneo da população LGBT. A mídia hoje discute mais a homossexualidade, através das suas novelas, dos seus programas, das paradas gays, passando a verdadeira mensagem para a população. Você vê as transexuais discutindo no Fantástico a cirurgia de transexualização. Isso é um grande avanço.
 Como pesquisadora da área de gênero e diversidade sexual e militante LGBTT, o que você avalia de avanços da classe nos últimos anos?
Teve muito avanço. Hoje o movimento LGBT está mais fortalecido. Os TCCS, as monografias, as teses e a Academia em geral estão discutindo o movimento. Ele tem mais visibilidade e está crescendo mais, de uma forma que é um dos maiores do país. O movimento feminista e o LGBT são os maiores do país. O movimento também está começando a se formar nos espaços de socialização. Quando a gente poderia imaginar que veríamos um gay na rádio discutindo a homofobia, uma transexual na TV discutindo a transexualização, ou que na universidade poderia se discutir a diversidade de gêneros, como já discuti várias vezes na Unit? No cenário político também nunca se discutiu tanto a questão LGBT como no momento. 
Adriana não abre mão de uma verdadeira amizade
Pode se dizer que Adriana Lohanna é a encarnação de uma vencedora?
(pensativa) Pode. Como eu disse, a militância está no meu sangue, no meu ser. Quando eu entro em uma briga, entro para vencer. Minha vida é de vitórias, mas antes de ser a encarnação de uma vencedora, vem a luta, porque não há vitórias sem lutas. Isso está dentro de mim. A cada dia eu venço uma luta, que é essa luta grande por dias melhores, por direitos iguais, por ideologias e principalmente uma coisa que eu acho muito bonito que é amor e paz.
 Você é a senhora do seu próprio destino?
Toda pessoa deve ser construtora do seu destino, da sua história. Somos o que fazemos. Sou eu quem construo minha história. Se hoje eu deixo de dar uma palavra de conforto ou se acolho a quem me procura, estou construindo meu futuro. Acredito muito nisso.
 De todas essas lutas travadas, quais lições você aprendeu?
A maior lição que eu guardo é que você deve ter capacidade de se levantar a cada queda, porque batalhas virão sempre. Se você aprende a lidar com as dificuldades, você vence. Ficam muitas lições de cada pessoa que consigo mudar a cabeça, de cada um que diz “sua palestra me ajudou”, do mundo que eu continuo construindo desde a luta na militância.
Quais sonhos faltam realizar?
(fica alguns minutos pensativa. Baixa a cabeça) O sonho do verdadeiro amor. Amar e ser amada. Esse é o meu maior sonho. Realmente ver a nossa sociedade livre, sem preconceitos, para amar e ser amada. Onde homossexuais, travestis, transexuais possam viver de mãos dadas, sem julgamentos, não presas em guetos, trancafiadas. (a voz fica embargada… se emociona e chora). Todos nós temos direitos iguais.
 Você está escrevendo sua autobiografia. Conte para nossos leitores o que podemos esperar da obra.
O livro vai abordar a questão do preconceito, a luta contra o preconceito, o preconceito na sociedade, a minha transexualização, como me descobri transexual. O livro será concluído logo após a realização da cirurgia. Conto como é ser transexual; como é a adolescência e vida de uma transexual; como é nascer mulher e não ser percebida na sociedade. Vou fazer vários relatos. Muitas pessoas serão citadas, como meu amor eternizado Adenilson. Finalizo a obra com a nova Lohanna, após a cirurgia.


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